Editorial Verke
Clarificação de valores: encontrar o que te importa
Editorial Verke ·
Esquece o que pensas que os teus valores são. Esquece a lista que está na intranet da empresa. Esquece "honestidade, integridade, excelência" — toda a gente reivindica isso e não quer dizer nada. Aqui vai uma pergunta melhor: o que te deixou irritado na semana passada? Não chateado — genuinamente irritado, daquela irritação que te apanhou de surpresa. Essa raiva era um valor que estava a ser violado. Os teus valores não estão numa lista escrita por outra pessoa. Estão nas coisas que te tocam por dentro, nos momentos que te acendem e nos arrependimentos que te tiram o sono.
A maioria dos exercícios sobre valores entrega-te uma lista de 50 palavras e pede-te para escolheres as 5 principais. Está ao contrário. Os teus valores não estão numa lista — estão no que já fazes quando ninguém está a ver, no que te irrita quando um valor é violado e no que terias pena de não ter feito. O exercício abaixo não te dá uma lista para escolher. Ajuda-te a ouvir o que já lá está. Vais escrever primeiro e perceber a teoria depois. Essa ordem é propositada.
Parte 1 — 5 minutos
Encontra os teus valores (faz isto primeiro)
Quatro domínios da vida. Uma pergunta para cada. Não penses demais — escreve 2 a 3 palavras ou frases curtas por domínio. Não objetivos ("ser promovido"), mas qualidades ("levar rigor e criatividade a problemas difíceis"). Se te apanhares a escrever o que achas que devias valorizar, pára. O teste: acende-te ligeiramente quando o lês, ou parece-te uma obrigação? Obrigação significa um valor herdado de outra pessoa. Acender significa que é teu.
Trabalho / Estudos
Não respondas apenas com a razão. Responde a partir da última vez em que te sentiste genuinamente vivo no trabalho — ou numa aula, ou num projeto. O que estavas a fazer? Não a tarefa em si, mas a qualidade com que a fazias. Estavas a criar? A ensinar? A resolver? A liderar? Essa qualidade é o valor. Escreve 2 a 3 palavras ou frases curtas.
Relações
Que tipo de amigo, parceiro ou familiar queres ser? Não o que queres dos outros — o que queres trazer. Pensa num momento em que estiveste lá para alguém de uma forma que te pareceu certa. O que estavas a trazer? Presença? Honestidade? Leveza? Confiabilidade?
Lazer / Diversão
Se tivesses um sábado livre, sem obrigações nem culpa — e o passasses de uma forma que te deixasse genuinamente vivo, não apenas relaxado — o que terias feito? Não "o que devia eu apreciar" — o que é que te faz perder a noção do tempo?
Crescimento pessoal / Saúde
Que tipo de pessoa estás a tornar-te? Não o que estás a manter ou a gerir — em que direção estás a crescer? Se pudesses descrever a pessoa que estás a trabalhar para ser daqui a 3 anos, que qualidade teria que ainda não tens?
Se escreveste o que pensas que devias valorizar, volta atrás. O teste: isto acende-te ligeiramente quando o lês, ou parece-te uma obrigação? Obrigação significa um valor herdado de outra pessoa. Acender significa que é teu.
Se escreveste o que pensas que DEVIAS valorizar em vez do que realmente valorizas, não estás sozinho. A Amanda pode ajudar-te a separar as expectativas herdadas do sinal real — normalmente numa só conversa.
Fala disso com a Amanda — não precisas de criar conta.
Fala com a Amanda →Parte 2 — 5 minutos
A avaliação do alvo
Desenha um alvo simples: quatro anéis concêntricos, divididos em quatro quadrantes — um por domínio (trabalho, relações, lazer, crescimento pessoal). Em cada quadrante, coloca um X onde estás honestamente neste momento:
- Centro (alvo) = a viver plenamente em linha com este valor
- Anel exterior = completamente desalinhado
- Em qualquer ponto intermédio = a avaliação honesta
Isto não é uma nota. É uma fotografia. O que provavelmente vais encontrar: 1 a 2 domínios próximos do centro, 1 a 2 muito longe. Essa distância é a coisa mais útil deste exercício todo — mostra-te exatamente onde a tua vida está desalinhada, sem moralismos.
A distância não é motivo de vergonha. É uma orientação. A maior distância mostra-te para onde apontar a tua primeira ação alinhada com os teus valores.
Parte 3 — 5 minutos
Uma ação alinhada com os valores esta semana
Escolhe o domínio com a maior diferença. Indica uma ação que possas tomar esta semana que te aproxime um anel do centro. Não uma reviravolta na vida — um único passo.
- Específico: "Telefonar à minha irmã" e não "ser melhor irmão/irmã"
- Esta semana: não "um dia destes"
- Sob o teu controlo: não depende da resposta de outra pessoa
- Alinhada com os valores: ligada à direção que nomeaste, não apenas produtiva
A estratégia de compromisso: diz a alguém. Escreve. Marca um lembrete no calendário. Uma ação sem compromisso não passa de um desejo.
Porque o pequeno vence o grande: uma ação alinhada com os valores por semana, mantida ao longo de seis meses, transforma uma vida. Um gesto grandioso seguido de seis meses dos mesmos padrões não muda nada. Se o que te impede de tomar a ação alinhada com os valores for uma previsão temida, põe-na à prova — as experiências comportamentais servem exatamente para isso.
O quadro
Agora a teoria — o que acabaste de fazer
Na Terapia de Aceitação e Compromisso (ACT), os valores são direções, não destinos (Hayes, Strosahl & Wilson, 2012). "Casar" é um objetivo. "Ser um parceiro amoroso e presente" é um valor. Os objetivos acabam; os valores não. Nunca chegas a "ser bondoso" — caminhas nessa direção. É por isso que alcançar objetivos muitas vezes sabe a vazio: a falácia da chegada. Supunha-se que o objetivo te faria feliz. Não fez, porque era um marco num caminho, não o caminho em si. Quando o caminho (o valor) está claro, os objetivos ganham sentido porque servem a direção.
O alvo que acabaste de desenhar não é um truque de autoajuda — é um instrumento de avaliação validado, usado na investigação em ACT (Lundgren et al., 2012). E a distância que reparaste entre o que te importa e como estás efetivamente a viver? Essa é a variável-chave. Wilson et al. (2010) concluíram que não é o quanto valorizas algo que prevê o bem-estar — é a consistência com que ages em função disso. A distância entre importância e consistência é onde reside o trabalho.
Uma meta-análise de 39 ensaios aleatorizados concluiu que a ACT se mostrou mais eficaz do que as condições de controlo na ansiedade, depressão e stress — sendo o trabalho sobre valores identificado como um processo central de mudança (A-Tjak et al., 2015). Para mais sobre esta abordagem, consulta Terapia de Aceitação e Compromisso.
Valores vs. objetivos vs. regras
Estes três conceitos andam constantemente baralhados. Desemaranhá-los evita a maior parte da confusão que as pessoas têm com o trabalho sobre valores:
- Os valores são direções — contínuos, nunca completos. "Ser uma figura parental presente e generosa."
- Os objetivos são marcos no caminho dos valores — alcançáveis, conclusíveis. "Treinar a equipa de futebol da minha filha esta época."
- As regras são prescrições rígidas que se disfarçam de valores. "Não posso desiludir ninguém" não é um valor — é uma regra movida pelo medo da rejeição.
A pergunta crítica: escolhi isto ou herdei-o? Se vem de um dos teus pais, de uma cultura, de uma religião, de um empregador — e nunca examinaste se é realmente teu — pode ser uma regra disfarçada de valor.
Quando a ambição substitui os valores, vem o esgotamento — porque não consegues parar mesmo estando esgotado explora esse padrão. E quando ages contra os teus valores, costuma ser evitação, não um defeito de carácter — porque te auto-sabotas desmonta isso.
Quando os valores colidem
"Valorizo a evolução na carreira e estar presente para a minha família." Parece um conflito, mas raramente é. Os valores não entram em conflito — são direções, não destinos. Podes caminhar em ambos os sentidos, ainda que nem sempre ao mesmo tempo. A pergunta não é "qual valorizo mais?", mas "qual está mais vivo em mim neste momento?"
A abordagem de Russ Harris: encara os dois valores sem te apegares a nenhum. Pergunta qual deles, se for negligenciado esta semana, causaria mais arrependimento. Essa é a tua bússola para a semana — não para sempre, nem sequer para o mês. Só para esta semana.
O alvo é um documento vivo. Reavalia-o a cada trimestre. O que importava aos 25 pode não importar da mesma forma aos 40. Evoluir não é trair — é crescer.
Quando procurar mais ajuda
Os exercícios de clarificação de valores conseguem fazer muito por si sós, mas têm limites. Se te sentes persistentemente vazio ou sem rumo apesar de fazeres o trabalho, se a distância entre os teus valores e o teu comportamento te paralisa em vez de te motivar, ou se explorar os teus valores faz emergir luto ou ansiedade intensos, vale a pena falar com um psicólogo registado na OPP. Podes encontrar opções acessíveis em opencounseling.com ou linhas de apoio internacionais em findahelpline.com. Não há prémio por fazeres isto sozinho quando podes ter ajuda.
Trabalha com a Amanda
Se quiseres ajuda a separar as expectativas herdadas dos valores verdadeiros, a Amanda foi feita para isto. A abordagem dela usa ACT — a modalidade em que este artigo se baseia — para te ajudar a clarificar o que realmente importa e a integrar ações alinhadas com os teus valores na tua semana. Ela lembra-se do que tens vindo a trabalhar ao longo das sessões, por isso o trabalho vai-se acumulando. Para mais sobre o método, consulta Terapia de Aceitação e Compromisso.
Conversa com a Amanda sobre isto — sem precisar de conta
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FAQ
Perguntas frequentes
E se eu não souber o que valorizo?
Isso é mais comum do que possas pensar — e não é por estares vazio. Costuma significar que os teus valores foram obscurecidos por obrigações, expectativas ou modo de sobrevivência. Começa pela pergunta do "sábado livre": se tivesses um dia sem obrigações e sem culpa, e o passasses sentindo-te genuinamente vivo, o que farias? São os teus valores a falar. Outro caminho: repara no que te irrita — a raiva muitas vezes sinaliza um valor violado.
Em que é que os valores são diferentes dos objetivos?
Os objetivos são pontos de chegada alcançáveis — podes riscá-los da lista. "Correr uma maratona" é um objetivo. "Ser fisicamente ativo e desafiar os meus limites" é um valor. Os objetivos acabam; os valores não. Nunca terminas "ser bondoso" ou "ser criativo". A diferença prática: quando alcanças um objetivo sem valores por trás, sabe a vazio. Quando as tuas ações se alinham com os valores mesmo sem chegares ao objetivo, ganha sentido.
E se os meus valores mudarem?
Vão mudar — e isso é saudável. Os valores evoluem à medida que cresces, vives coisas novas e entras em diferentes fases da vida. A avaliação do alvo é uma fotografia, não uma sentença permanente. Volta a ela de poucos em poucos meses. O que importava aos 25 pode não importar da mesma forma aos 40. O exercício não é encontrar os teus valores "verdadeiros" e imutáveis — é verificar onde estás agora e ajustar.
E se conheço os meus valores mas não estou a viver de acordo com eles?
Essa distância entre os valores e o comportamento é universal — e é precisamente para isso que serve este exercício. O alvo torna a distância visível sem julgamento. O passo de definir "uma ação alinhada com os valores" torna-a acionável sem ser esmagador. A distância costuma manter-se por evitação (mudar parece arriscado), por hábito (inércia) ou por medo (e se eu falhar?). As experiências comportamentais podem ajudar a testar esses medos.
A clarificação de valores pode ajudar com a ansiedade ou a depressão?
A investigação sobre ACT mostra que o trabalho sobre valores é um processo central de mudança tanto para a ansiedade como para a depressão. Na ansiedade, os valores dão uma razão para enfrentar os medos — não porque evitar seja "errado", mas porque algo importa o suficiente para avançar nessa direção. Na depressão, os valores dão rumo quando a motivação está ausente — não precisas de te sentir motivado para tomar uma ação alinhada com os teus valores, e a própria ação costuma gerar a motivação. Uma meta-análise (A-Tjak et al., 2015) concluiu que a ACT é eficaz em ambas as condições.
O Verke fornece coaching, não terapia nem cuidados médicos. Os resultados variam de pessoa para pessoa. Se estiveres em crise, liga 988 (EUA), 116 123 (UK/UE, Samaritans), ou os teus serviços locais de emergência. Visita findahelpline.com para recursos internacionais.